Ser ou não ser "cota"
Quando era jovem, ia com outros companheiros a uma pastelaria onde convivíamos com os “cotas” de então, que se juntavam à noite para ver televisão, uma coisa rara. Aprendíamos com as suas experiências e mostrávamos a nossa irreverência. Certo dia, um de nós fez uma afirmação que levou um dos adultos a perguntar:
— Ó rapaz, que idade tens?
— Dezassete — respondeu o visado.
— Pois, tens a idade da parvoíce.
Idade da parvoíce. Que boa idade. Vivíamos o presente, não nos preocupávamos com o imaginário chamado futuro. Ficávamos felizes com uns escudos no bolso para comprar um doce. Gostávamos de gajas boas ou menos boas de acordo com a nossa apreciação subjectiva. Respeitávamos os mais velhos e a sua sabedoria, feita de experiência.
Como me deixei chegar a cota? Incompetência.
Para me esquecer um pouco da situação, meto os pés a caminho, respiro um pouco de ar puro e vou até à Pastelaria Paraíso beber um descafeinado, com o pretexto de ver a menina dos olhos tristes, mas pintados de beleza. Tenho ido menos do que o habitual. Tomo café em casa, embalado em frasco de vidro, para não poluir.
Quando entrei, a menina reconheceu-me logo, apesar da ausência, e disse, com os seus modos simples e suaves:
— É um café sem café?
— Não, é um café com café, mas sem cafeína.
Perante a sua surpresa, procurei explicar a diferença entre os dois tipos de café. Usei até o exemplo da fábrica da Delta (passe a publicidade), onde mostram esse processo aos visitantes.
Olhou-me com o olhar ternurento das pessoas despretensiosas, que valorizam quem as ensina, e disse:
— Muito obrigado, mas não sabia.
Para rematar a conversa e aliviar um pouco a ideia de qualquer tipo de superioridade, procurei simplificar:
— Sabe, senhorita, a cafeína é excitante e, se a tomo, não durmo. Fico às voltas na cama, num "tête-à-tête" com os lençóis. Ainda se tivesse companhia que me retirasse o excesso de cafeína… Assim, só lhe posso estar grato por me servir esse café descafeinado, do qual a senhorita é a cafeína.
— Pois, às vezes durmo mal. Se calhar, também tenho de beber menos café…
Enquanto pastava os olhos pelos diários, que também devoram a natureza, pus-me a pensar se não devia desistir do café. Tanta fábrica a poluir. Mas, ao mesmo tempo, pensei nos milhares de trabalhadores que vivem à custa dessa indústria e nas milhares de pastelarias que dão trabalho a tanta gente, incluindo a menina dos olhos lindos, pintados de tristeza, que, na sua singeleza, me parece feliz.
Decidi ir vê-la mais vezes.
No meu destino de "cota-diano", não me sinto bem com gente azeda.

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